Viver o sobrenatural

Acredito que o mundo tenha extremidades, bordas, que à partir de um ponto, caia-se num nada. Ou, se já provaram que o mundo não é assim, imagino que a vida seja. As bordas da vida evidentemente são o nascimento e a morte. E acreditando nisso, reconheço que acredito no sobrenatural. Eu estava conversando sobre essas coisas com uma mulher recém conhecida e ela estranhou, lembrando-me que sou ateu. As pessoas fazem uma confusão nada. O sobrenatural não tem a ver com Deus nem o Diabo, tem a ver com o que não é natural. Um local pode não ter gravidade e ter oxigênio.

Particularmente acredito numa outra história, na possibilidade de todas as situações serem criações extremamente cerebrais, o que, de certa maneira, dá no mesmo da metafísica porque nós não nascemos para fora (como uma pipoca). Nascemos para dentro com assistir a um filme da pipoca estourando ao contrário (”desestourando”). Quando era o nada, era pipoca, quando fecundou, virou milho. Somos, portanto, milho e não pipoca. Isso é muito importante em nosso desenvolvimento para entendermos que a vida está toda dentro do nosso cérebro e não fora. Somos nós que fazemos as situações, coisas e pessoas, à partir da nossa cognição e criatividade. Para uma pessoa desprovida de cérebro não existe vida. Então vida é cérebro. Essa teoria não é só minha. Ontem pela manhã recebi a visita de um conhecido de muitos e muitos anos, um velho com longa barba e roupas bastante surradas. Ele foi meu professor de tarot e me fez engatinhar na cabala (que até hoje estudo, mas morrerei sem entendê-la completamente). E falávamos de universos paralelos, da sua possibilidade real de existência. Mas é claro que é possível porque a imaginação não tem limites. Os homens não têm limites. Se houvesse algum limite, Borges não poderia ter existido. Se eu leio Borges e compreendo perfeitamente todo aquele universo é porque o aceito (ainda que como obra literária). Se aceito, concordo com suas propostas. Calvino é outra exemplo e Elias Canetti mais um. Se tudo é aceitável, tudo se desfaz no ar e tudo se une em outro ponto, muito além da lógica comezinha do homem tolo. Sim, é uma tolice não perceber a criatividade de cada um. Certo, os burros não têm criatividade, mas aí estão em outra categoria, na dos burros. Estou falando de gente que pensa, que aceita o que vê, que discute as questões um pouquinho mais à fundo.

Esse meu mestre ficou um pouco, tomou uma cerveja me falou de um autor que eu deveria ler (anotei num papel e agora não acho) e partiu em paz. Na conversa posterior com minha conhecida nem citei a visita para não complicar ainda mais. A internet, por exemplo, é uma criação literária, ela em si, não existe. Se não for escrita por seus autores, tudo deixa de existir (Não falo de blogues, falo da internet inteira). E mesmo assim, a net é um dos menos criativos mundos paralelos. Os outros meios, os mágicos, são muito mais interessantes e, para entrar, não necessitamos de nenhum suporte físico. (continua)

1 Resposta para “Viver o sobrenatural”


  1. 1 NILCEIA BASTOS SERENO 15/01/2009 às 13:01

    VOCÊ POSSUI UMA INTELIGÊNCIA NOTÁVEL! AMO LITERATURA E TODOS OS QUE A CULTUAM.
    A RESPEITO DE DEUS: PODERIA POR IMAGINAÇÃO SE FAZER UM PARALÍCTICO ANDAR, UM CEGO VER, UM SURDO OUVIR (…).
    “ESTES SINAIS SEGUIRÃO A TODOS OS QUR CREEM”, PROCLAMOU O MESTRE. ACREDITE, A CADA SEGUNDO, EM TODA A TERRA, HÁ CENTENAS DE FENÕMENOS EXTRAORDINÁRIOS ACONTECENDO POR INTRVENÇÃO DO ESPÍRITO DE DEUS E OS ANJOS AOS QUAIS ELE COMANDA. PESSOALMENTE, VIVENCIO ISSO.
    ATÉ QUALQUER DIA……….


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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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