Para minha enorme surpresa, ontem à tardinha três pessoas que estudam literatura e fazem parte do grupo de discussão me telefonaram perguntando se podiam dar uma passada rápida na minha casa. Sim, eles combinaram entre eles e me ligaram depois. Lembrei-os que era segunda feira de carnaval, que a chuva tinha parado. Dois deles apenas iam a uma festa carnavalesca, mas queriam passar aqui. Ok, vieram. O motivo foi surpreendente: viram no blog que estou lendo os diários de Sylvia Plath e cada um dos três comprou um volume para que pudéssemos discutir. Por fim chegaram e nos acomodamos tomando um pouco de vinho branco (que ganhei semana passada). Eles foram diretor ao assunto: Sylvia tinha depressão crônica, cada página de seu diário é uma tristeza, uma depressão só. Bom… comprei antes e estou mais adiantado na leitura, mas tive que concordar. Sim. Depressão do início ao fim do dia. Não foi o marido dela que a ’sufocou’ com seu sucesso, foi ela que não suportou o que ela mesma chamava de seu fracasso. Claro que tem muita coisa pra ler ainda, um livro de letras miúdas e oitocentas páginas. Mas você pode abrir em qualquer página, qualquer época que ela está lá reclamando do “nariz entupido”, da falta de ânimo, falta de vontade de dar aulas, angústia com os alunos, angústia com as revistas que não aceitam sua poesia, angústia com o tempo. Um dos meninos objetou que sempre lera que ela não resistiu à forma agressiva-literária do marido, mas não é o que ela revela no diário. Se ele foi agressivo (e foi), muito e muito antes, ela já estava completamente deprimida. É uma depressão tão forte que contamina enquanto estamos lendo. Ela sofreu muito nos seus trinta anos de vida e, por falta de tratamento adequado, seu suicídio deve ter sido uma benção. Um outro menino me perguntou se eu não achava que a paixão de Ana C. por Sylvia não era mais pelo seu modo de ser (uma espécie de estranho ‘glamour’ da depressão) do que propriamente por sua poesia. Fiquei muito inclinado a concordar com ele, mas achei imprudente e respondi com um ‘Talvez’. Um terceiro me disse que a obra de Ana C. é melhor e maior que a de Plath e devolvi-lhe a pergunta : o que poderia, de que forma, uma poesia poderia ser melhor do que outra? Sabia que minha resposta era ridícula. Muito poucos jovens gostam de estudar pra valer, mas o que gostam, nossa, sai de baixo. Procuro tomar cuidado com esses meninos, muito embora eu não seja professor (quem sou eu?). Eles querem me mostrar as coisas, me mostrar que estão interessados pelas coisas, que estão lendo e estudando (e é tudo verdade). O problema é que eles não sabem exatamente por onde começar, quais autores escolherem por vez e essas coisas muito comuns da juventude. Nisso talvez eu ainda tenha alguma coisa a acrescentar, mas tenho consciência que será por pouco tempo, que se eu tivesse bastante tempo de vida, em breve, eles estariam me orientando tranqüilamente. Acho isso muito bom, reconfortante. Às vezes a juventude (com suas características de juventude) me irritam muito – e aí é culpa minha de não saber compreender, claro – mas, como disse, existem grupos que botam pra quebrar e fico feliz por eles, por entender que, de certa forma ele irão muito mais longe do que outras pessoas: eu, por exemplo.
De toda a forma não chegou a ser uma discussão séria, conversamos um bocado e, findo o vinho, dois deles disseram que iam curtir o carnaval e o terceiro disse que ia ao cinema. Logo, eu estava sozinho (com o Artur, é claro) e, meio indisposto, fui assistir uma comédia água com açúcar na televisão… Depois começou um outro filme, mas não consegui, peguei no sono.

0 Respostas para “Diários, Carnaval e cama”