Sim, volto ao assunto e voltarei muitas vezes. Uma leitura mais atenta de Caio Fernando Abreu é um soco no estômago, é você entender que tudo o que já leu foi superficial, que as coisas estão muito no lugar, muito ordenadamente, que esse sentimento que nos corrói pode sim ser escrito. Caio descreve. E quando ele descreve e vamos lendo as gotas geladas de suor escorrem por nossas costas alertando que o mundo é bem isso mesmo, que a vida pode, muitas vezes, ser um equívoco, pode ser uma ilusão atávica, que podemos descobrir uma outra história, um outro movimento, um outro momento, exatamente esse que não queremos ver. Numa época como agora, véspera de um ano novo (2008), entendemos que Caio há mais de vinte anos dizia exatamente os sentimentos que nos tomam agora, que ele não previa, não é isso, que ele dizia coisas imutáveis coisas da alma daninha e irrealizada do ser humano. Não adianta ler Caio simplesmente como se lê um livro qualquer. É preciso estar com a alma exposta, com o coração completamente aberto para perceber que não percebemos nada e o que percebemos não sabemos traduzir. Não adianta vivenciar as coisas se não sabemos traduzí-las. Não adianta viver sem entregar-se de corpo e alma a todos os sentimentos e os que nos cercam. Como não adianta também falar apenas das alegrias e das esperanças. A vida é composta de muito sofrimento, muita dor, muita contrariedade… existe um mundo paralelo (já confirmado pelos Físicos) que nos puxa para frente e para trás, para os lados e para dentro. Num primeiro momento parecem tratar-se das nossas raízes, mas não é isso. Nem sei se temos raízes e, se temos, elas são cultivadas em terreno podre, mofado, num terreno fétido como fétidas são as pessoas que não se percebem nem ao outro.
E pensar que eu um dia acreditei que Florbela Espanca, Ana C. e Fernando Pessoa tinham dito tudo ou quase tudo. Nada! Não existe compreensão absoluta de um pensamento mais agudo do mundo se não lemos Caio Fernando Abreu. Porque é complicado você entender exatamente o significado da lama. Nem sempre lama é lama. Nem sempre sol é sol. Apenas a paixão é sempre paixão. Apenas a dor na paixão move montanhas, apenas olhar, sentir e adorar platonicamente pode ter algum sentido. Coisas que a gente tem que aprender. Aliás me deixa impressionado como a gente não sabe as coisas mais simples da vida.

Obrigada, obrigada e obrigada.
Minha loucura por Caio já foi alvo de reclamações, de tão forte que é.
Choro até hoje quando lembro de Pela Noite.