Sim, desafino!

De repente, decubro-me entrecortado. Espantado, percebo que um certo paralelismo que eu acreditava, já não é. Tínhamos sim uma vida paralela e isso me agradava secretamente e secretamente meu pensamento voava. E agora não mais. O susto que me tomou… levou-me, de imediato, a outros mundos. Mas como! Sou dado a visões inuteis (?) e falsamente fatalistas. Trabalho com o sonho, realizo-me em contar histórias para meninas e meninos recentemente deixados pela infância. Transfiro tudo e a infância está em mim. Sou quem pretende reinventar os sentimentos. O amor. A perda. A despedida precoce. De maneira oblíqua consigo dizer que visitei planetas perdidos! Regogizo-me no olhar atônito ou bravo quando ela chega de saia azul-marinho plissada. Trago na pasta todos os bilhetes de amor previamente escritos sinceramente. Os versinhos, tolos é claro, guardo-os todos como quem prepara uma antologia infantil. Das mais velhas, exijo uma literatura pesada, difícil, quase intransponível. Uma chegou a me dizer que, por minhas exigências filosóficas, passara a tomar Prozac! Não dou importância a manifestações de apreço ou desdém, são simplesmente humanas. Meus métodos não me foram ensinados. Aprendi todos ao longo do caminho. Com Sade, inclusive. Possuo uma enciclopédia imcompleta, meio banguela e leio os verbetes que ela me permite, dos tomos que estão em meu poder. A mulher da janela em frente me olha incessantemente e sinto vontade de fazer-lhe gestos os mais obcenos só de brincadeira. Contenho-me porque estou trocando a casca da serpente. Acredito no romance e, certamente, Antônio Conselheiro não morreu, não naquela data da História. Tomo café como quem busca a embriaguez e consigo até certo ponto. Ela e elas têm uma participação ativa na minha vida e na minha história. Tornei-me, bem sei, uma coisa híbrida, um cálice de licor já bebido. As horas de sono são cuidadosamente reguladas por doses previamente escolhidas de soníferos, comprimidos simpáticos de cor verde. Entendo-me com a paixão, mas não sei se ela se entende comigo. Divago muito, eu sei. Sirvo-me numa salva de prata aos convidados que me devoram sem saber; acham que comem polvo. Ora, essa idéia é recorrente e sou, de uma certa maneira especial, um polvo diferente, que abraça a si mesmo para proteger-se das correntes mais geladas. Não digo toda a verdade. Pelo menos não de um só vez. Vou diluindo o mistério ao longo dos dias, ora aumentando-o, ora omitindo ou subtraindo partes a meu bel prazer. Invariavelmente meu coração se aperta, torna-se alguma coisa parecida com um noz. Mas sobrevivo ao caos e tumulto de sentimentos que me assolam ao longo do tempo para me testar. Escolho o meio mais radical. Renego as coisas que me desagradam e gozo com a perfeição da harpa. Sou o músico do meu espírito. Sim, desafino! Reconheço a meia de nylon e o neon em forma de trumpete que ilumina minhas noites. Sou inquieto além da medida. Ainda acredito poder redesenhar a vida. Bipolar ou pé chato? Tanto faz. Caminho sempre desfeito em luz e sombra. Talvez, em algum momento, eu chegue. Talvez eu seja o bastardo de Hugo ou um dos meninos d’Os Miseráveis. Por enquanto, num discreto desequilíbrio, sou a hipótese, a possibilidade.

0 Respostas para “Sim, desafino!”



  1. Sem comentários ainda

Deixe um comentário




Ela…

Ela...

Trocas

e-mail


"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

Visite:
wwwgeraldoiglesias.blogspot.com

""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Do que se gosta?

  • Nenhuma

Tempo…