Vim para dormir à tarde, para descontar a noite em claro, mas agora que bem poderia, o sono não me vem como a acusar-me de ser ainda de tarde. Não. Não necessitava realmente dormir, mas embalar-me num estado sonolento que me provocasse, quem sabe, o sonho. Sim, tenho dessas coisas, dessas vontades de sonhar sonhos bons, sonhos desses que nem propriamente sonhos são e sim planos, os mais marotos que já tive desde a infância. Hoje, fios brancos a cobrir-me o rosto, sonho muito mais atrevido e maroroto do que quando menino. Tenho para mim que meninos sonham pouco porque a própria vida que vem é matéria de sonho e mais: de sonho que vai realizar-se de verdade. Hoje tenho apenas o período fudidio de uma madrugada, um fiapo de vontade realizada como se meu desejo tivesse diminuído com a idade! Não! Continua igual! Não morri e não tenho sintomas de que vou por agora! Por que não realizar meu sonho num tempo bom, gostoso, duradouro como deve ser a realização de todos os desejos!?
Não importa muito. É verdade que eu poderia fazer igualmente ginástica de forma a manter, não o corpo em forma, mas a mente mais ou menos controlada. Impossível. Minha mente não se aquieta, diz para si mesma que estão querendo iludí-la ( e estão!) e não aceita nada como troca para seus anseios. Desejos… Um dia, há muito tempo atrás, acreditei que conseguiria controlar todos, que deixaria vir à tona apenas aqueles mais comedidos, de mais fácil realização. Desconsiderei a parte mais importante da história da vida: o outro. Sua imprevisibilidade, seu jeito manso de chegar e se instalar naquele canto do espírito em que não alcançamos. Pelo menos, não facilmente. Esqueci do óbvio, da coisa mais certa e inexperada: a incomensurável liberdade da outra pessoa. Agora tudo já aconteceu e não posso mais mudar as regras do jogo no meio do caminho. Resta-me seguir, perseguir, conquistar fragmentos. Foi o rumo que escolhi irresponsavelmente ao desconsiderar que nem tudo depende de mim. Tarde demais! Agora silencio reverente e libidinosamente.

Lê meus pensamentos?
Ontem à noite, quando fui dormir, me lembrei disso. Com cinco, seis anos quando tinha medo, fechava os olhos e criava longos roteiros. Quase que sentia cheiro, gosto, toque. Depois virou um passatempo. Ia para a cama só para imaginar. Como era bom! quantas aventuras…
Ontem à noite não pedi um sonho, mas pedi uma história. Queria a casa da árvore. Dormi antes.
durma bem estranho.
talvez, hoje, seja uma ótima estratégia para aguentar o quarto quente, feio e ar decadente.
beijo