Sempre falei e insisti em pontos de fuga para todos – e para mim também. Não fui eternamente assim, mas os anos e as porradas da vida me ensinaram (acho) a rever posições, rever posições dos outros também e manter a chama do “começar de novo aberta”. Não deixo de achar que novas experiências podem ser muito boas, muito importantes. Nesse momento eu penso que faz-se tudo, que tudo pode ser válido se estamos buscando nossos pontos de equilíbrio. É verdade também que nunca fui muito bom em manobras desses pontos de equilíbrio talvez porque eu seja naturalmente desequilibrado, talvez por que eu ache que a gangorra tem que descer, ficar presa por instantes no chão para que nos apercebamos de que é necessário, mais, muito mais, que é necessário lutar pelo equilíbrio. Acho ainda que, nesse aspecto, a vida é muito mais madrasta do que mãe e que é preciso uma reviravolta nossa (ainda que seja voltando muitos e muitos passos atrás), reviravolta tranqüila e consciente para retomarmos alguns pontos de sustentação. Sobre esses pontos, não vejo nenhum (aliás nunca vi mesmo) que não seja estabelecido em bases sólidas do mais profundo, do mais alucinante e completo amor. Aprendi a não acreditar em absolutamente nada que não tenha essa base, esse amor como sustentação para qualquer coisa.
Mas os sentimentos também fazem metamorfoses, também iludem, também nos fazem seguir trilhas impensadas, sairmos fora de um eixo criado com afinco. São armadilhas de todos os lados e sim, caímos muito nessas armadilhas. Não entramos nessa por tolice ou inocência, entramos porque somos extremamente sanguíneos, porque permitimos a exacerbação da emoção momentânea, seja de afeto ou raiva. Faz parte desse jogo jogado. Eu poderia até afirmar que nesses jogos de aproximação e afastamento, de busca daquilo que nos é muito caro entramos SEMPRE nas armadilhas das encruzilhadas que vão se colocando. Muito poucas pessoas, acredito, não tomam atalhos algumas (e muitas) vezes na vida e só muito mais adiante percebem que é uma furada e voltam todo o percurso até a estrada principal, até a estrada que leva ao porto seguro.
Por sua vez, esse termo, “porto seguro” é frágil, escorregadio, insinua que não podemos caminhar com nossas pernas, que necessitamos da MULETA de um porto seguro. Nada mais idiota. Não é nada disso! Mesmo nesse “porto seguro” precisamos caminhar sozinhos e continuamos responsáveis por cada uma de nossas atitudes. O referido porto é outra história, é a calmaria e a beleza do encontro. É saber que não estamos exclusivamente sozinhos no mundo, que alguém pensa em nós, entendermos que após os dias de guerras em terras longínquas retornaremos ao lar e encontraremos ali a mão amiga que nos estenderá uma xícara de chá. Que nas noites posteriores à nossa chegada, quando os pesadelos medonhos sobre as guerrilhas que vivenciamos, nos fizerem suar demasiadamente, agitarmo-nos na cama e urrarmos de pavor, haverá ao lado o corpo e a mão que se pousará em nossa fronte buscando trazer paz, dizer que tudo passou. É mais simples: tal como os desertos do Saara, a vida também possui oásis.
Negar-se a essas ilhas de paz, não perceber e insistir em deixar de lado aquela que nos traz a verdadeira tranqüilidade é mais ou menos como fechar os olhos, mas ou menos como uma atitude infantil (da primeira infância) quando fazemos tudo apenas de birra, apenas “porque sim“. Não creio que a vida permita esse “sim porque sim” ou “não porque não”. Utilizar-se de situações exógenas para tomar atitudes íntimas, que tratam da nossa vida, da construção e do aproveitamento que as coincidências nos proporcionaram, negar tudo isso por fatos menores (por pior que sejam) é mais temeroso do que parar e olhar bem. Olhar nos olhos ou, dar-se a mão e, juntos olhar-se para a frente, para o futuro. A vida deveria, acho, ser reconstruída sem medos nem vergonhas, sem preconceitos e sem mágoas. Deveria tudo ser tratado baseado exclusivamente em nossa percepção de ‘humanidades’, mas, principalmente, no amor.

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